Entrevista de Peter Hammill concedida à Artist Shop IRC, no canal @MusicArena em 15 de novembro de 1998.
Os participantes enviaram suas perguntas antecipadamente aos organizadores, que as selecionaram.
A partir das 18 horas de Brasília, Peter Hammill, sob o "nick" de "derbydazzer", começou a responder algumas das 225 questões enviadas via Internet pelos fãs de várias partes do mundo.
Abaixo, está a tradução integral da entrevista.
For the complete English version go to Jim's Fireship.

PH: É um prazer estar aqui.

Qual seria uma primeira influência sobre seu estilo "tempestuoso"de cantar. Talvez Captain Beefheart?
PH: Foi mencionado antes, que eu estava tentando fazer algo com a voz equivalente ao que Hendrix fazia com a guitarra... ou Coltrane no sax.

É possivel um álbum Peter Hammill / Robert Fripp?
PH: Tudo é possível! Eu suponho... se bem que, ambos somos pessoas que gostamos de ter controle sobre nossos próprios projetos . Dai, compartilhar nossos projetos seria problemático! Contudo, certamente, eu espero trabalhar com Robert novamente de uma forma ou de outra... em um futuro próximo.

O que aconteceu com as séries "BeCalm" e "ALoud" depois de "Fireships" e "The Noise"?
PH: Acho que os dois discos se transformaram em séries de 1. A idéia original era delinear (algumas) das divisões em minha música, mas desde então, preferi apresentar uma mistura (como de costume).

Mediador: Acho que devemos dizer que poderíamos considerar este evento como uma festas de aniversário pela internet, assim com um IRC chat. Peter comemora 50 anos este mês!!!

Você alguma vez imaginou, nos anos 70, que ainda estaria no "rock business" aos 50 anos?
Quando bateu em você que isso não era mais apenas um desafio de uma pessoa jovem?
PH: Estava absolutamente além da imaginação, que mesmo tendo sorte... chegar aos cinquenta, Peter!!! Você seria capaz de fazer algo por mais ou menos cinco anos ...
Estou falando naturalmente sobre a tentativa de se fazer algo sério...
Então, voltando lá, eu imaginava que eu / nós devíamos ter uma direção decente por uns cinco anos... e dai, de alguma maneira me transformaria, trinta anos depois, em um aclamado romancista em alguma ilha do Pacífico... não deu certo!
Comparando os dois (e não é um jogo de um jovem), isto nunca foi um problema para mim, a partir do momento em que percebi que eu estava definitivamente ligado e realizado com a música... afinal, meus ouvidos tinham sido provocados primeiramente pelos tocadores de "blues" , que continuam tocando até o fim (como eu espero fazer)... Em minha visão, os problemas apenas chegam se você começa a tentar fazer um trabalho ou escrever de uma perspectiva ou idade que seja falsa para você... Sacou?

Como você se sente trabalhando com a DGM (DisciplineGlobe Mobile)? É uma chance de superar as experiências do passado com as companhias de discos?
PH: Esta pergunta tem relação com uma anterior. Foi um momento singular para nós, Robert e eu, nos encontrarmos novamente depois de vários anos...
Enquanto, efetivamente, as companhias de disco muito importantes (Os idiotas das companhias de disco, com suas inteligências de natureza singularmente pequenas...)
Quem teria imaginado isso? Contudo, um desenvolvimento natural. De qualquer modo, o meu, ou o relacionamento da Fie! com a Discipline é transparente e honrado. Eles lançaram nos Estados Unidos e a Fie! lança na maioria dos outros lugares e naturalmente as decisões e direitos autorais são de direito do artista como deveria ser.  Não é assim com as outras companhias de disco, mesmo com aquelas independentes, comparativamente benígnas!

Peter, você se consideraria talvez um verdadeiro fã do material ao vivo dos concertos de Robert Fripp/King Crimson?
Mediador: Acho que ele está se referindo ao "Collector"s Club"da DGM.
PH:  Antes de responder, gostaria só de me desculpar por alguns erros de digitação, mas estou tentando responder as perguntas o mais rápido possível.

Mediador: Sem problemas, eu corrigirei tudo na transcrição. LOL! (laughing out loud!)

PH: Bem, há o Collector's Club, mas também Robert tem uma grande quantidade de fitas, daqui até lá, creio eu, por todos esses anos.  Eu não tenho um arquivo desses. Dai, nenhum lançamento, embora alguma coisa possa surgir nos próximos anos.

Se você comparar "This" a seus trabalhos dos anos 70, como você diria que sua música mudou?
PH: Com certeza, mas obviamente estou mais velho! Uma vez que sempre tive horror da repetição e medo do tédio (de mim mesmo, antes de tudo!) Quer dizer que tenho sempre tentado fazer algo novo. Às vezes, isso significa passos hesitantes.

Mediador: Para mim, "This" parece uma comemoração de tudo que já foi feito antes.

PH:  "Albuns ruins. Mas sem serem muito desgraçados".  Asterisco nisso, devo dizer que a história (a áurea & caso contrário) gradualmente se acumula. Então, eu não rejeito o material dos anos 70 (ou o anterior). Eu tento fazer o melhor trabalho, mas da perspectiva e com as experiências da idade que tenho agora... incluindo todo o material do passado. Eu diria que "This" é algum tipo de afirmação de continuado intento.
Desde que estava gravando no 50º ano, após 30 anos fazendo "isso" (this) (-ish), ele sendo o 40º álbum (de acordo comigo), talvez desconfie da numerologia... Eu queria juntar algum elemento que ainda me interessa de todas as coisas na música, bem mais do que fazer um trabalho "coerente" por si - como em "Everyone", o último.  Acho que é o bastante  sobre isso?

Mediador: Quer dizer, um alô ao passado, enquanto você caminha para o futuro.
PH: No agora, absolutamente!

Quais são suas principais influências e quem você escuta quando tem tempo para escutar música?
PH: Segunda parte primeiro.   Acho que em comum com outros artistas, uma das coisas que devemos abandonar, é ter a consciência de que isto (fazer música) não é apenas uma moda passageira, mas uma carreira e uma vida são a habilidade de "ouvir" pura e simplesmente. Qualquer coisa que vagamente se aproxime de nossa própria área será objeto para uma análise crítica de uma natureza um tanto duvidosa...  Dai, por exemplo, eu raramente ouço algo na arena do "neo-rock" como um " freguês". De fato, isso não pode me servir, porque normalmente passo no mínimo 8 horas por dia trabalhando no material que "eu" acho que este tipo de música deveria conter. Então, ouvir música como um ouvinte, não seria exatamente relaxante para mim. Também devo salientar que como um homem de família e imagino que haja algumas pessoas com família ai..?

Mediador: certamente.

PH: ... prender 45 minutos de absoluta e única atenção de uma noite seria uma tarefa digna de... Hércules!
OK, parte 1.  As influências no começo foram (bastante estranhas): R'nB, Chicago Blues, Hendrix, grupos britânicos, especialmente The Animals, Who, Beatles (até certo ponto); Soul Music... Depois me liguei ao jazz e ao clássico em todas as suas manifestações. Assim acredito que a absoluta virtude do "rock" é a de podermos detonar todas essas coisas juntas e produzir algo novo. Como fizemos! Mas isso foi há muito tempo atrás e me refiro a minha resposta anterior.  Na verdade, desde que você esteja fazendo alguma coisa, as influências se tornam mais como perfumes no ar do que nos temas que você busca.

Você tem alguns álbuns favoritos dentre os 40 - e alguns que você varreria pra debaixo do tapete?
PH:  Pra mim, cada álbum não é apenas uma coleção de escritos, música & performance, mas também um período de tempo, de gravação, escrita e de vida. Portanto, eles são de uma certa forma estranhos diários para mim... Oh, *esse é* o material que me interessa então? Como eu disse antes, o processo é cumulativo. Assim, não poderia eliminar nenhum álbum e ter outros permanecendo como são. Por exemplo, muita gente não "saca" "In A Foreign Town"...
E eu admito que parte dele me soa muito cansativo agora, mas se eu não o tivesse feito daquele jeito, não poderia avançar para os mundos de "Fireship" ou "Everyone".

Mediador: Peter, você falou sobre suas influências musicais, mas eu desconfio que há significantes influências literárias de impacto em seu trabalho. Você pode compartilhar algumas delas conosco também?
PH: Sou um leitor disperso hoje em dia. Eu era muito chegado nas antigas sagas escandinavas e nas coisas anglo-saxônicas na adolescência... Njal's saga, Beoweulful, etc... depois evidentemente veio a ficção-científica. E a obra Shakeaspeare obviamente tem estado presente em toda a minha vida!!! Mas também tenho uma afinidade com o mundo estranho de Pynchon e Borges.

Mediador: E talvez Poe?
PH: Mas, novamente, "a influência" é uma coisa engraçada quando ela chega para o que na verdade entra no trabalho. Tentei preservar a literatura como uma área em que eu possa simplesmente ser um consumidor... embora frequentemente argumente com a página, surpresa, surpresa!

Como você considera experimentos do tipo de "Fall of The House Of Usher", hoje em dia?
PH: Como um capítulo de acidentes que merece uma segunda olhada* ( as a chapter of accidents who deserves a second look) * (Peter Hammill cita aqui a letra de "Accidents" do álbum "Enter K".)
Voltando ao tópico "homem de família" - e por favor, me desculpa se isto for muito pessoal - o que sua família acha de seu trabalho?
PH: Você quer que eu faça disso uma amostra de círculo familiar? LOL (laughing out loud)
Para eles, o fato de eu ser "quem" sou e fazer o que faço é absolutamente normal, naturalmente. A primeira semana de Holly (a primeira filha) em casa foi acompanhada de meus  esforços percussivos em pH7. Depois disso, "qualquer coisa" é normal.

Peter, você ainda tem contato com os outros membros do VdGG e haverá um projeto no futuro com os caras?
PH: Bem, nós bebemos uma ou quatorze vezes juntos na "PeterFesta" semana passada...
Não posso imaginar que nós "não iremos" fazer algum trabalho de um tipo ou de outro com as várias combinações pessoais pelos próximos anos, mas  eu duvido muito que será sob a édige do VdGG!!!! Mas penso que haverá boas combinações ... Acho que é a evidência de nosso bom senso, juntar o que nós fizemos ao que "fazemos". Na verdade, permanece bom se amigos intermitentes, os bons tempos e a boa música não foram manchados pelo rancor.
Nós nunca deixamos de fazer o que deveria ser feito... foi por isso que tivemos que parar.

"Frozen Places soa como a música para aeroportos de Eno (Eno's Music for Airports), o próximo álbum experimental será nesta direção?
PH: Se (o que quer seja) for experimental, obviamente terá que ser novo para mim também.
Embora eu esteja espantado em descobrir que combinando as coisas em quantidades e perspectivas diferentes, parece produzir resultados novos a todo momento. Se eu estivesse lutando por um mundo analógico aqui, acho que seria o da culinária!
Seriamente, eu espero me familiarizar com os próximos experimentos, apenas superficialmente e...

Qual foi a inspiração para para "safehouse?
PH: É uma das canções cinematográficas... não dizendo que ela tenha sido feita propositalmente como uma trilha sonora de um filme imaginário, mas um apanhado do próprio filme. "Just Good Friends" e "Don't tell me" também caem nessa categoria, dentre outras. Dai, apenas tive este sentimento cinematográfico do "Último Sobrvivente da Resistência", em uma cidade sendo invadida, mandando mensagens para ninguém. Acho que é alguma coisa entre Graham Greene & Sarajevo...

Peter, você já tocou com Robert Wyatt?
PH: Não, nunca. No mesmo palco, mas não simultaneamente... um homem a quem eu tiro o meu chapéu... não sobraram muitos de nós.

Por que você usou vocais mais sobrepostos em seus álbuns recentes, opondo-se ao vocal solo e forte no VdGG?
Antes de tudo, porque eles são difíceis e depois porque são divertidos!
Também, no VdGG (veja o primeiro ábum) minha função como vocalista era surgir como uma guitarra ou um instrumento de sopro. Assim, naquele ambiente, uma voz apenas  é melhor... também era mais ou menos uma representação do que soaria com se fosse ao vivo, bem "real".

Seus vocais em "Everyone..." são lindos!

Não mais do que, digamos, pH7 ou Future Now.
PH: Realmente devo dizer que a coisa do vocal em múltiplas camadas tem sido feita por uns bons longos anos, desde o início da década de 70.

Mediador:  Peter, você tem algumas datas chegando na Europa, em dezembro. Eu tinha uma grande quantidade de perguntas sobre sua próxima tournée  nos States.  Você poderia nos dizer alguma coisa sobre isso ou outros planos de tournée? E quais os músicos que poderiam estar acompanhando você?
PH: Na Europa em dezembro, estarei acompanhado pelo impecável e indescritível Stuard Gordon no violino e Ruído. É uma combinação com contínuas possibilidades. Bem, elas são todas, francamente!!!  No que se refere ao palco, bato no peito em humildes desculpas por não ter dado nenhum daqueles palcos cheios por muitos anos...
Posso apenas lhes dizer que é prioridade um , pra mim,  fazê-lo, de algum modo, em algum lugar, quando quer que seja, em 1999!

Mediador: Qual é a sua opinião sobre o estato do "rock" em geral, atualmente?
PH: Interessante como na maldição chinesa "que você viva em tempos interessantes".

Há alguma coisa mais que você gostaria de mencionar antes de finalizarmos hoje?
PH: Na verdade, a última resposta foi um tanto irreverente. Há ainda muitas pessoas que acreditam que o "rock" é uma forma artística igual às outras. Não quero dizer, em ser digno de estar no museu, mas de Afirmação. Então é possível fazer a coisa. Mas tenho bastante simpatia pelas pessoas  que chegam AGORA e tentam fazer a coisa, porque a Indústria(o que ela é agora) é colocada contrariamente ao Trabalho Atual. Quero dizer... Interessante!
Nada mais a acrescentar por agora. Foi um prazer ter este "neo-chat" com todos vocês.!
 

 

[VdGG | Discografia PH 70 | Discografia PH 80 | Discografia PH 90 | Coletâneas | PH | Notes on certain songs ]



Go to Site Map