Crítica de Paulo Chagas, de Portugal, sobre Clutch
Acabadinho de chegar às
prateleiras, está aí o novo álbum do cantor/compositor/poeta
Peter Hammill, “Clutch”.
Essencialmente de sonoridades
acústicas, esta ninhada de canções ouve-se como uma
ceia de inverno. Enroscamo-nos em
cachecóis e mantas
e vamos petiscando cada peça sonora como fatias de pão com
queijo, enchidos fortes e vinho novo.
Todos os temas foram basicamente construídos para a guitarra (e
ocasionalmente o alaúde) de Hammill, sendo
acompanhadas pelos sopros
e pelas cordas de dois amigos de longa data – David Jackson e Stuart Gordon
– que lhes
oferecem os mais delicados
temperos.
A ementa abre com “We are written”, uma canção sobre a sina
fadada a cada um de nós e sobre a consciência de
escrevermos a vida de maneira
diferente. A introdução presenteia-nos com um acorde de quarta
suspensa a cair para um de
segunda também suspensa
antes de se decidir pela tonalidade menor do tema. O cruzamento entre as
duas guitarras utilizadas
revela-se como um misto
entre o contraponto e os efeitos de falsa reverberação que
suportam as vozes, também elas
explorando o referido efeito.
Segue-se “Crossed wires”, com a primeira apresentação do
violino executado sempre em enérgicas arcadas. As vozes
desdobram-se em permanentes
sublinhados do texto que fala da compreensão da vida e do seu significado,
das verdades e
das dúvidas que nos
envolvem. Uma canção simples com um beat insistentemente
marcado na antecipação dos tempos fortes.
“Driven” é uma canção lenta, outra variação
ainda sobre o mesmo tema – a vida – aqui exposta como uma caminhada
efémera por onde
passamos, contrapondo os sentidos obrigatórios às vias abertas
e livres do sonho. A nova aparição
instrumental nesta peça
é o saxofone tenor de Jackson que encarna precisamente a liberdade
de quem anda à boleia na
canção.
A faixa seguinte musicalmente surge quase como uma segunda parte da anterior,
tendo o saxofone sido trocado pela
viola de arco. Intitulada
“Once you called me”, trata o tema da nostalgia e angústia dos pais
perante a chegada dos filhos à
aioridade. Muito alegórica
e liricamente muito bela, tal como toda a sua linha melódica.
A quinta canção, “The ice hotel”, traz um interessante jogo
entre os múltiplos saxofones e as múltiplas guitarras
executados num rubato permanente
e pendular onde sobressaem deliciosos ornamentos de picos harmónicos.
As vozes
desdobram-se em coros também
múltiplos e desenvolvem-se num interessante e insólito cânone.
O fanatismo religioso e as suas sanguinárias consequências
é o mote para “This is the fall”. Uma das melhores canções
do álbum, a fazer
lembrar muitos dos ambientes vandergraafianos. Flautas florestais e saxofones
electronicamente
modificados são apenas
alguns exemplos do que ela integra. A voz de Hammill mostra também
aqui todo o seu potencial
ecléctico.
Outro tema actual tratado no álbum é o flagelo da pedofilia.
A faixa “Just a child” é uma abordagem bastante
comovente (e ao mesmo tempo
sóbria) do assunto. A linha melódica é uma das mais
bem desenhadas de toda a obra de
Hammill, com um suporte
harmónico também ele sóbrio, simples e de um encadeamento
perfeito. O pormenor do violino
electrificado a sublinhar
a voz e a conduzir a parte B do tema a um movimento ascendente é
arrepiante.
E, por falar em melodias belas, a seguir vem “Skinny”, uma canção
construída em torno de uma melodia extraída do
boião de compota
hammilliano. No entanto, a outra metade da canção é
uma incursão completa ao frasco do vinagre da
mesma cozinha. Típico
do homem. O tema fala de mais um tema presente – problemas de auto estima,
angústias perante a
imagem corporal, anorexia.
A maior relevância instrumental reside nas pontes construídas
em harmónicos de guitarra sobre a
qual se equilibram os silêncios
e as vozes.
Finalmente “Bareknuckle trade”, a peça mais longa do álbum.
Uma canção sobre as aprendizagens pessoais ao longo
da vida, as fraquezas e
as conquistas humanas. Musicalmente está muito próxima de
“Lizard play” (do remoto “The quiet
zone”, de 1977) quer no
beat das guitarras, quer na explanação polifónica,
quer ainda na estrutura em crescendo. O ambiente
é completamente onírico,
sobretudo na coda em antítese onde se atinge a ordem de relaxamento
total, como sempre a
sublinhar as palavras na
perfeição. Uma referência especial para a secção
central onde o solo de violino, “mascarado” com
wah-wah, se revela um dos
melhores momentos do disco.
Por tudo o que foi dito, não hesitamos em considerar esta uma das
melhores edições do ano e recomendar vivamente a
sua audição.
Paulo Chagas - Portugal